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quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Dia 02/10/2013 - 15,21 hs.

Faz tempo que não publico minhas experiências. O computador quebrou e esqueci de concerta-lo, aliás esqueci até de que tenho um computador.
Num desses sábados a Raquel apareceu em meu apartamento de manhã.
Me despertou e empurrando-me porta afora arrastou meu corpo alquebrado para a casa de Da. Bentinha.
A mulher morava fora de cidade em uma região rural na qual se chegava através de uma estrada de terra cercada por matas cerradas molhadas pela cerração matutina.
O pequeno fusca de Raquel resfolegava, patinava, e ia abrindo caminho com dificuldades pela pequena pegada forrada de folhas mortas e encharcadas pela água que escorria das árvores.
Ouviam-se gritos dos pequenos macacos e aves que pulavam pelos galhos secos das árvores centenárias.
Depois de uma hora de luta insana o minúsculo carro chegou até uma porteira de arame farpado que no momento se encontrava aberta, caída no chão, como se alguém a houvesse arremessado ali descuidadamente.
Depois de passarmos pela porteira rodamos uns quinhentos metros e nos deparamos com um casarão abandonado, com o reboco branco caindo e deixando ver feridas marrons nas velhas paredes.
- Essa habitação era a sede da fazenda que havia aqui, disse Raquel.
- Era uma casa de pau a pique com assoalho de madeiras largas e no seu porão ficavam os escravos que no século 19 procuravam ouro para seus senhores, falou Raquel. Parando o carro em frente da velha casa.
- Venha, disse a moça, quero lhe mostrar.
Subindo uma escada que existia na frente do prédio, entramos por uma porta larga pendurada precariamente em velhos gonzos de ferro enferrujado.
Entramos em uma ampla sala com piso de madeira que em muitos pontos se encontrava podre.
- Cuidado para não cair, disse Raquel.
- Olha o forro, feito de madeira e espie que era branco, disse Raquel.
Andamos pela sala entrando em um corredor largo e comprido de onde saiam quartos enormes, no fim do corredor descortinava-se uma cozinha, onde uma grande fogão  descansava num canto, todo preto, queimado pelo fogo.
Enquanto andávamos nossos passos ressoavam no porão abaixo como se alguém batesse compassadamente um tambor.
Após passarmos pela cozinha descemos uma escada que dava acesso ao porão abaixo.
Aquela parte da casa tinha um piso de terra batida, as paredes eram feitas de barro alisado e as janela eram fechadas por caibros de madeira colocados em pé separados um ao lado do outro  para que a luz e o ar penetrasse pelos vãos.
A atmosfera é pesada e o cheiro de mofo penetrava violentamente no nariz.
Das paredes pendiam argolas de onde saiam pesadas correntes enferrujadas.
- Ai que se prendiam os escravos, aqui descansavam após um dia de serviço pesado. Eram presos nessas correntes e dormiam no chão nú. Uma barbaridade, disse Raquel.
Aquele cenário produziu em mim um efeito devastador.
A mata opressiva, a casa maldita, antro de corrupção, violência, tudo era detestável.
-Vamos sair daqui, disse correndo para o ar matutino.
- Vamos à casa de Da. Bentinha, fica a uns duzentos metros mais a frente, disse Raquel.
Andamos pelo meio do mato molhando nossas roupas.
É ali, falou Raquel apontado com o dedo.
Eu não esperava aquele novo cenário.
Num local descampado erguia-se uma pequena casa, toda branca com janelas e portas pintadas de azul.
Um pequeno jardim cercava a propriedade cheio de roseiras caipiras pendentes com cachos de pequenas flores de cor rosa.
Não se via uma viva alma, não havia fios de energia elétrica, o que indicava que a moradora não possuía iluminação.
Um velho cachorro deitava-se no capacho de entrada, como que guardando a casa.
Ao chegarmos no pequeno portão do jardim Raquel bateu palmas chamando Da. Bentinha.
Após alguns minutos a dona do casebre apareceu.
Confesso que sofri um choque. Esperava uma senhora negra, com grandes saias rodadas fumando um charuto.
Mas não.
Da. Bentinha era uma mulher de uns 50 anos, pele branca, olhos azuis, cabelos brancos presos por um pequeno coque e vestia uma calça jeans com uma blusa branca que caia elegantemente por seu corpo.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Dia 09/09/2013 - 13,00 hs.

Ultimamente tenho tido uns lapsos de memória.
Cheguei a esquecer que coloco minhas experiências neste blog.
Os dias se intercalam rapidamente e esqueço em que dia do mês e da semana estamos.
O tempo para mim deixou de existir, não me lembro de atender os compromissos financeiros e vivo pagando contas em atraso.
Parece até que estou  vivendo um só dia, e que nada se modifica. Se não fossem, os compromissos, que também acabo esquecendo, teria a impressão que tudo havia parado, que o planeta se imobilizara no espaço quedando quieto esperando que algo aconteça.
A sim o caso do médico que Raquel me recomendara que procurasse, para examinar minha cuca.
O nome dele é Geraldo, que droga de nome, me atendeu bem profissionalmente, isto é , quase não tomando conhecimento de meus problemas e da minha presença.
Depois que contei todas as minhas experiências, escreveu rapidamente um memorando para que fizesse um eletroencefalograma.
Resumindo, fiz o exame que nada constatou.
Me encaminhou então para um analista, pois talvez fosse um desvio mental provocado por um trauma de infância e sei lá o que mais.
Perguntem-me que fui ao analista.....
Evidentemente que não seria uma outra chateação e eu não estava mais a fim de enchimento de saco.
A Raquel continua se preocupando com meu estado físico/mental.
E eu vou fazendo para ela o relatório de minha vida maluca.
Não vi mais as sombras.
Mas sei que estão por ai.....eu as sinto....nos meus sonhos...nas minhas andanças...no meu trabalho.
Raquel marcou um dia para visitar Da. Bentinha, eu me esqueci que dia seria este, hoje vou telefonar para ela para me informar novamente.
Esqueci de ir trabalhar, tinha certeza que era feriado....droga

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Dia 14/08/2013 – 22.00 hs.

Demorei uns trinta minutos para contar tudo à Raquel.
Minhas palavras saiam aos borbotões entre uma mordida do sanduiche de porco e um gole de refrigerante de laranja.
Raquel escutava tudo impassível, as vezes arregalava seus olhos pretos e assentia com a cabeça.
Quando terminei o relato e meu lanche....ficamos em profundo silêncio.
- Eu acho, retrucou Raquel, quebrando o silêncio. Que você está com um imenso tumor na cabeça, o que lhe provoca alucinações, ou que uma entidade maléfica está prestes a tomar conta de seu corpo.
-E olhe as duas opções não são muito boas para sua saúde.
Eu não pude deixar de sorrir, um sorriso triste, mas mesmo assim sorri.
- E o que você acha que devo fazer?, perguntei.
- Olha vou lhe ajudar, porque não gosto de ver alguém sofrendo, disse Raquel, enquanto arrumava uma mecha de cabelo por detrás da orelha.
Cruzando os dedos das mãos sobre a mesa, e me olhando bem fundo nos olhos, falou.
- Primeiro você deve procurar assistência médica para examinar seu cérebro. Enquanto você faz isso vou falar com uma amiga de minha tia, Da. Bentinha,  que é médium espírita, vamos ouvir o que ela pode dizer sobre esses fatos. Talvez ela queira lhe dar uns passes para melhorar seu nível espiritual, que tenho certeza anda muito baixo.
- Nem bem havia pronunciado estas palavras apanhou sua bolsa dizendo rapidamente.
- Vou voltar para o trabalho, você ligue imediatamente para um médico neurologista do plano de saúde e marque uma consulta, hoje à noitinha falo com Da. Bentinha, não se esqueça de pagar a conta.
Saiu esbaforida da lanchonete sem me dar ao menos a oportunidade de lhe agradecer.
Fiquei ali sentado com cara de paisagem.....
Mas sei que ela tem razão......vamos então visitar um médico, droga......

quarta-feira, 14 de agosto de 2013


Dia 14/08/2013 – 18.00 hs.

 

O nome dela é Raquel.

Uma moça de uns 35 anos de idade, nem bonita nem feia, dessas mulheres que impressionam por sua impetuosidade e simpatia.

No escritório, onde eu trabalho, todos a tem em alta consideração, pois, está sempre de bom humor e disposta a ajudar a todos.

Possui um defeito, ou qualidade, não sei, gosta de leituras espíritas e de frequentar as chamadas “mesas brancas”, onde se convocam espíritos e coisas assim.

Pois foi à Raquel que resolvi contar minha história.

Na verdade, precisei contar, não aquentava mais viver com meus fantasmas, não sabia o que fazer se as malditas sombras voltassem a me atormentar.

Convidei-a para o almoço, na cantina desgastada perto do escritório.

Notem bem, o boteco é velho tem mesas e cadeiras descascadas o chão riscado pelos inúmeros sapatos que por ali já passaram, mas serve uma comida deliciosa, muitos altos executivos da região vem ali para almoçar e tomar uns tragos depois do trabalho.

As 13,00 horas o local estava lotado, havia um cheiro de carne de porco assada no ar misturada com cerveja e refrescos.

Sentamos numa pequena mesa, onde mal cabiam nossos pratos e copos.

-Sabe Raquel, disse eu, enquanto empurrava pela garganta abaixo uma fatia de pernil com pão, que havíamos pedido……
Dia: 6/08/2013 - 2,00 hs.

Quando a energia elétrica cai faz barulho?
Foi com este barulho que fui acordado subitamente.
O quarto estava escuro como breu, pairava um silêncio palpável, estendi minha mão em direção à mesinha de cabeceira de minha cama a procura de uma lanterna foi então que vi....
Esculpida na parede em frente à minha cama uma sombra muito mais escura que o escuro do quarto.
Uma figura, não sei se de homem ou mulher. Estava coberta por algo que parecia uma capa com capuz, olhando para mim, fitando minha alma.
Senti um arrepio cortando minha espinha. Já então, com a lanterna iluminei a parede, mas nada havia ali.
A figura havia desaparecido.......então a energia elétrica voltou e com ela parecia que tudo voltava ao normal, o barulho da cidade, os carros passando na rua.....
Me levantei e fui até a cozinha tomar um copo de água.
O fato havia me chocado incrivelmente. O que é uma sombra?  Os dicionários dizem que:
espaço privado de luz pela interposição de um corpo opaco entre ele e o objeto luminoso (sombra espacial)

sombra In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-08-14].
Disponível na www: <URL: http://www.infopedia.pt/lingua-portuguesa/sombra;jsessionid=VJaqhi7RwC3vEb16IpM9KA__>.
"é o espaço privado de luz pela interposição de um corpo opaco entre ele e um objeto luminoso".
Mas como num espaço sem absolutamente luz alguma conseguiria produzir uma sombra?
Espírito....fantasma?   Mas nesse caso porque viria me assombrar?  E as sombras da rua? Como explicar o caso do pobre cachorro que teve praticamente sua vida sugada.........

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Dia: 06/08/2013 - 17,00 hs.

Uma semana passou..
Embora a lembrança das sombras ainda estivesse na minha cabeça não falei delas para ninguém.
Nos últimos dias, à noite, voltava para meu terraço frio e debruçado na grade de aço olhava em torno, na rua, entre as árvores da pracinha em frente a procura das figuras insólitas, que tanto me impressionaram, mas nada, só a solidão escura e lúgubre.
Achava que as pessoas e animais evitavam o lugar. Os carros passavam rápidos talvez com medo de encontrar.......
Frustrado me retirava, para jantar e me preparar para dormir.
- Onde estavam as sombras?
Essa pergunta passava pela minha mente qual uma lâmina fria e cortante antes de pegar no sono.

quarta-feira, 24 de julho de 2013


Dia 24/07/2013 – 7,00 hs

 

O despertador me acorda de um pesadelo.

O sono não havia sido reparador

Enquanto tomava uma xícara de café quente, liguei a televisão e ali estavam as notícias do dia anterior e da noite.

O Papa estava no Brasil, explosão de fé e esperança  do  povo.  Depois, notícias pavorosas de morte, roubo, corrupção, um desgraçado havia matado a mãe e enfiado o corpo numa geladeira…..

O dia havia começado como sempre, sofrimentos, sofrimentos, sofrimentos.

Depois de devidamente envenenado pela televisão, lembrei-me, como não poderia deixar de ser, das sombras na noite escura.

Corri para o terraço. O dia estava chuvoso e lúgubre. A rua  movimentada pintada com inúmeros guarda chuvas. Mas nada de sombras. Somente o trivial diário.

-Estou ficando louco, pensei

Colocando minhas roupas pesadas para enfrentar a chuva e o frio sai para mais um dia de serviço.

Dia 23/07/2013 – 23,00 hs.

Não sei porque não consigo dormir.

Saio para o terraço de meu apartamento.

Um céu escuro, nublado, venta frio e uma chuva miúda molha insistentemente a paisagem lá embaixo.

Debruço-me sobre a grade de ferro que me impede que caia da altura de vinte andares e observo…….

Sombras escuras se recortam no negro da noite.

São vultos que quase flutuam se escondendo entre as árvores de um pequeno  parque  ali existente.

Se esgueiram por detrás dos bancos de madeira, entre os tronco de árvores se espremendo entre os edifícios.

Um velho cão arrastando uma das patas feridas se aventura na noite triste.

Quase ouço seu lamento dolorido a cada passo que dá.

Bruscamente uma das sombras se lança sobre o animal e suga seu sofrimento, sua agonia.

O animal se senta na calçada molhada e lança no ar um uivo  longo  e apavorante.

Um carro corta a rua suja em alta velocidade o cachorro se assusta e corre desesperado entre  as  árvores.

As sombras, agora alvoroçadas,  avançam  até ele…..

Aterrorizado volto para dentro do apartamento buscando auxilio num longo gole de vodka.

A bebida me aquece.

Procuro o abrigo das cobertas de minha cama procurando o esquecimento no sono reparador.