Faz tempo que não publico minhas experiências. O computador quebrou e esqueci de concerta-lo, aliás esqueci até de que tenho um computador.
Num desses sábados a Raquel apareceu em meu apartamento de manhã.
Me despertou e empurrando-me porta afora arrastou meu corpo alquebrado para a casa de Da. Bentinha.
A mulher morava fora de cidade em uma região rural na qual se chegava através de uma estrada de terra cercada por matas cerradas molhadas pela cerração matutina.
O pequeno fusca de Raquel resfolegava, patinava, e ia abrindo caminho com dificuldades pela pequena pegada forrada de folhas mortas e encharcadas pela água que escorria das árvores.
Ouviam-se gritos dos pequenos macacos e aves que pulavam pelos galhos secos das árvores centenárias.
Depois de uma hora de luta insana o minúsculo carro chegou até uma porteira de arame farpado que no momento se encontrava aberta, caída no chão, como se alguém a houvesse arremessado ali descuidadamente.
Depois de passarmos pela porteira rodamos uns quinhentos metros e nos deparamos com um casarão abandonado, com o reboco branco caindo e deixando ver feridas marrons nas velhas paredes.
- Essa habitação era a sede da fazenda que havia aqui, disse Raquel.
- Era uma casa de pau a pique com assoalho de madeiras largas e no seu porão ficavam os escravos que no século 19 procuravam ouro para seus senhores, falou Raquel. Parando o carro em frente da velha casa.
- Venha, disse a moça, quero lhe mostrar.
Subindo uma escada que existia na frente do prédio, entramos por uma porta larga pendurada precariamente em velhos gonzos de ferro enferrujado.
Entramos em uma ampla sala com piso de madeira que em muitos pontos se encontrava podre.
- Cuidado para não cair, disse Raquel.
- Olha o forro, feito de madeira e espie que era branco, disse Raquel.
Andamos pela sala entrando em um corredor largo e comprido de onde saiam quartos enormes, no fim do corredor descortinava-se uma cozinha, onde uma grande fogão descansava num canto, todo preto, queimado pelo fogo.
Enquanto andávamos nossos passos ressoavam no porão abaixo como se alguém batesse compassadamente um tambor.
Após passarmos pela cozinha descemos uma escada que dava acesso ao porão abaixo.
Aquela parte da casa tinha um piso de terra batida, as paredes eram feitas de barro alisado e as janela eram fechadas por caibros de madeira colocados em pé separados um ao lado do outro para que a luz e o ar penetrasse pelos vãos.
A atmosfera é pesada e o cheiro de mofo penetrava violentamente no nariz.
Das paredes pendiam argolas de onde saiam pesadas correntes enferrujadas.
- Ai que se prendiam os escravos, aqui descansavam após um dia de serviço pesado. Eram presos nessas correntes e dormiam no chão nú. Uma barbaridade, disse Raquel.
Aquele cenário produziu em mim um efeito devastador.
A mata opressiva, a casa maldita, antro de corrupção, violência, tudo era detestável.
-Vamos sair daqui, disse correndo para o ar matutino.
- Vamos à casa de Da. Bentinha, fica a uns duzentos metros mais a frente, disse Raquel.
Andamos pelo meio do mato molhando nossas roupas.
É ali, falou Raquel apontado com o dedo.
Eu não esperava aquele novo cenário.
Num local descampado erguia-se uma pequena casa, toda branca com janelas e portas pintadas de azul.
Um pequeno jardim cercava a propriedade cheio de roseiras caipiras pendentes com cachos de pequenas flores de cor rosa.
Não se via uma viva alma, não havia fios de energia elétrica, o que indicava que a moradora não possuía iluminação.
Um velho cachorro deitava-se no capacho de entrada, como que guardando a casa.
Ao chegarmos no pequeno portão do jardim Raquel bateu palmas chamando Da. Bentinha.
Após alguns minutos a dona do casebre apareceu.
Confesso que sofri um choque. Esperava uma senhora negra, com grandes saias rodadas fumando um charuto.
Mas não.
Da. Bentinha era uma mulher de uns 50 anos, pele branca, olhos azuis, cabelos brancos presos por um pequeno coque e vestia uma calça jeans com uma blusa branca que caia elegantemente por seu corpo.
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